Olá! Disse. Era pra moça que há tempos pegava o mesmo ônibus
que eu. Ela balbuciou, se transformando num sorriso, dos seus lábios saiu
fumaça, formando imagens à minha frente.
A porta. Não era ninguém, foi o vento
que tocou num galho. Desejo cometer suicídio dentro da banheira, uma seringa
vazia rolando no piso de madeira. Os
fantasmas, era os fantasmas. O que lhe traz ao meu túmulo? O homem com as mãos
enfiadas nos bolsos do casaco, fechou os punhos. A lua brilha para maus e bons
não é verdade? Só não brilha para os que não são nem um nem outro.
A cortina
balançou e a seringa rolou para perto da mão. Tenho que me conter, não posso.
Aquela rua foi o divisor de águas da minha vida. É tão bom estar assim, se não
tivesse parado para ver o cara descabelado que tocava uma música de lamento
talvez não estivesse assim. A barba dele.
Na escuridão da boca tem uma passagem secreta para o ouvido
que chega até o cérebro, e acontece que alguns ouvem pela boca, acredito estar
presenciando um desses raros. As palavras que entram pelo túnel, são as mais
duras, provocam dois sentimentos, duas dores. Você mastiga um amargo, depois o
cérebro bebe tudo, lambe a língua, a alma também acha amargo, depois cavernas e
mais cavernas se formam.
Tinha uma que dava para a highway. A placa enferrujada, alvo
do estanho, seguro na placa porque às minhas costas é um abismo, a floresta é
densa, está tudo seco. Os últimos anos tem sido de muita seca? Não sei, vivo
num mundo onde é proibido se sentir bem.
Os corvos gritam ao longe. Era um carro velho desses que
estão no cemitério da lembrança, metade verde água, outra branco, os faróis
iluminaram o corvo sobre a placa. O olhar caído dava o tom da música, lamento,
lamento.
As palavras se transformam em pedras, são instantâneas, ainda
para os que as ouvem pela boca, coração mole alma em chamas. Que ironia! As
boas são como água fresca que corre no vau do rio, tingindo os lírios com seu
reflexo. E vão pro mar, depois para as profundezas. Há que para achá-las
precisa de submarinos. As más são pedras que se empilham, formando montanhas
que ficam bem em frente à janela.
Ela escreveu alguma coisa no vidro embaçado, que depois foi
escorrendo com vento, ajeitou o anel, e ficou olhando para chuva que caía. Primeira
parada, e ainda estávamos calados.
Irineu Magalhães