sábado, 11 de outubro de 2014

O cais da alma

Todo mundo
tem um cais
dentro de si.
Um lugar onde
pousamos
nossos remos,
e falamos
"Boa noite capitão".
Sobre o deck
balançamos
nossos pés,
é o nosso chão,
precisamos.
Boa noite

Boa noite. 

O bibliotecário ladrão da rua 16


De uns tempos pra cá vinha tendo umas ideias malucas. Entre meticulosos roubos, sequestros e assassinatos uma ideia lhe chamava atenção, e não era mais a do suicídio, isso ele já havia descartado há tempos. Esquecido dentro de um velho livro perdido.

O noticiário informava que o dia seria feio, nuvens escuras e frio por todo estado. Depois das duas da tarde, pegou a bengala, abriu a porta da rua e sumiu na esquina. Mas antes ficou observando o papel de parede que se soltava - o chapéu era afagado pelas duas mãos enrugadas, enquanto atentamente olhava. 

O sol entrou pela janela da frente retumbando no quintal. Os meninos balançaram em gritos de alegria sob a árvore. Célia da janela instruí as crianças, e o seu pai ressona com o jornal sobre o peito. Linda Célia, de pele alva, calça jeans realçando o corpo. À noite saíram, o calor da vodca sobre a mesa derretia rapidamente os cubos de gelo em osmose na coca. Sobre seu ombro Célia esquecia da vida, faziam planos para as férias - dali até o final da noite mil planos. Amassou o chapéu em agonia e saiu.  

Chegou pouco antes do horário marcado, teve que esperar até que a rua sossegasse. Enquanto esperava dependurou o guarda-chuva sobre uma cadeira e pediu um café. Depois uma vodca, e outra e por último um gim. Desceu a rua escura contemplando as ruínas do seu tempo.

Na rua deserta, o ladrãozinho em gírias informou-lhe que havia sido tudo tranquilo. Ele pagou a quantia combinado entrou no carro, ganhou a avenida e sumiu. Três dias depois na 42ª delegacia, a Senhora Barulhenta da secretaria da biblioteca presta queixa que seu empregado havia sumido. 

Sentado na cadeira atrás, aguardando a vez estava um senhor calvo e sereno, típico daqueles que não move um músculo do rosto, enquanto na sua cabeça acontece uma guerra. Minutos depois ele calmamente iria prestar uma queixa. Seu carro havia sido roubado. Mas antes de chegar sua vez, ele interrompe a Senhora Barulhenta.

- Não estaríamos falando da mesma pessoa? Meu carro foi roubado, quem sabe se não é esse homem que a senhora fala.

- Lhe asseguro, não é! Disse com uma voz altiva a Senhora Barulhenta. Ele era um velho solitário que torrava nossa paciência no trabalho. Há tempos que queríamos que se aposentasse ou pedisse demissão.

- Velho ou triste, ainda sim é capaz de feitos desse tipo, acho que é ele o ladrão. Meu carro é uma relíquia.

- Lhe asseguro, não é! O Velho já está em idade avançada, seria incapaz disso. Se bem que nos últimos tempos  andava radiante, e parou de nos perturbar. Era só, não tinha filhos nem mulher - viúvo. Parou de vestir preto, coisa que fazia de muito antes de nos conhecermos - olha que tempo isso, moço. A última vez que o vi, vestia um terno amarelo, com uma flor vermelha no paletó. Na verdade há dias vinha trabalhar com roupas das mais variadas cores. Imaginávamos estar ficando gagá, e foi o motivo de todas as piadas no trabalho.  

O Senhor Calvo depois que foi atendido, abriu a porta da delegacia, olhou pros lados e cruzou a avenida. Depois, ficou procurando o sol por entre as nuvens. O mesmo sol que banha as praias do sul, o mesmo que reluz no para-choque do velho maverick.

- Pronto para o término das tatuagens? Disse o Tatuador balançando a maquininha na mão.
- Sempre, até o fim. Disse o Velho Bibliotecário.

Depois o Tatuador ficou pensando, o que queria dizer aqueles desenhos feitos por ele nas costas do Velho.


O Velho balbuciou “não tente entender”, mas o Tatuador não ouviu.

Irineu Magalhães

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A simetria do olho

Ela falou qualquer coisa daquelas facilmente respondidas com um an han. Agradeci pela bebida, olhei um balde que derramava água no topo da escada e desisti. Sentia-me capturado pelos olhares, como um pássaro sem saída sob uma arapuca. Eu odiava isso, preferia mil vezes que olhassem para outros objetos - em parte pelo meu riso feio. Olhares de cálculos são os mais profundos, analisam a alma desfiando o que pensam que temos de pior - o sofrimento alheio é reconfortante. Desci a rua, depois fiquei procurando o sol por detrás de uma grande árvore.

Memórias de fim de noite

Lembro bem das costas dela. A luz pálida que entrava pela porta da frente, a da varanda de tacos, iluminava-a. Quando ouvi o barulho dos sapatos sobre o piso, logo entendi se tratar de uma mulher. Sentou-se com as pernas cruzadas ao lado do balcão. Olhou rapidamente tudo à sua volta, depois pediu cigarro e uma bebida. Ela não me notou, no meu lugar estava um pouco escuro – só a luz fraca vazava pela janela sobre minha mesa. 

Fiquei rodopiando meu copo de bebida barata enquanto a observava atentamente. De tempo em tempo ela olhava para entrada como se tivesse esperando alguém. Minutos depois eu desejava que essa pessoa não viesse ou que fosse eu. E se as preces derramadas gota-a-gota dos meus lábios tivessem sido ouvidas, naquele momento um anjo negro de asas longas evaporaria da sua bebida, movendo o seu rosto para os meus olhos azuis de lua, mas não. 

Um gato roçou minhas pernas que me fez imaginar: como são sortudos os gatos de bares. Entrou um cara abraçou-a por trás e os dois subiram. O gato pulou no meu colo e eu quis mata-lo.

Irineu Magalhães 

sábado, 4 de outubro de 2014

Meninos-pipa

O menino quis voar
até as estrelas
então deu linha,
carretel afrouxou.
A pipa na noite
subiu, sibilou, sambou,
rabiola rabeou,
tocou a lua
levou o menino
pro o céu  profundo

de onde não mais voltou.

Irineu Magalhães

Mundo-menino

O professor
ensinou:
o mundo gira.
O menino
logo imaginou-se
num carrossel.

Irineu Magalhães

A órbita da alma

Desavisado amor, 
toda alma tem  
porão. 
Vagões carregados 
de passado,
negrume de espanto,
campos saqueados,
butins de guerras - 
nos corredores 
das horas 
devoras, 
devoras.

Irineu Magalhães