Lembro bem das costas dela. A luz pálida que entrava pela porta da frente, a da varanda de
tacos, iluminava-a. Quando ouvi o barulho dos sapatos sobre o piso, logo
entendi se tratar de uma mulher. Sentou-se com as pernas cruzadas ao lado do
balcão. Olhou rapidamente tudo à sua volta, depois pediu cigarro e uma
bebida. Ela não me notou, no meu lugar estava um pouco escuro – só a luz fraca vazava
pela janela sobre minha mesa.
Fiquei rodopiando meu copo de bebida barata
enquanto a observava atentamente. De tempo em tempo ela olhava para entrada
como se tivesse esperando alguém. Minutos depois eu desejava que essa pessoa
não viesse ou que fosse eu. E se as preces derramadas gota-a-gota dos meus
lábios tivessem sido ouvidas, naquele momento um anjo negro de asas longas
evaporaria da sua bebida, movendo o seu rosto para os meus olhos azuis de lua,
mas não.
Um gato roçou minhas pernas que me fez imaginar: como são sortudos os
gatos de bares. Entrou um cara abraçou-a por trás e os dois subiram. O gato
pulou no meu colo e eu quis mata-lo.
Irineu Magalhães
Nenhum comentário:
Postar um comentário