sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Memórias de fim de noite

Lembro bem das costas dela. A luz pálida que entrava pela porta da frente, a da varanda de tacos, iluminava-a. Quando ouvi o barulho dos sapatos sobre o piso, logo entendi se tratar de uma mulher. Sentou-se com as pernas cruzadas ao lado do balcão. Olhou rapidamente tudo à sua volta, depois pediu cigarro e uma bebida. Ela não me notou, no meu lugar estava um pouco escuro – só a luz fraca vazava pela janela sobre minha mesa. 

Fiquei rodopiando meu copo de bebida barata enquanto a observava atentamente. De tempo em tempo ela olhava para entrada como se tivesse esperando alguém. Minutos depois eu desejava que essa pessoa não viesse ou que fosse eu. E se as preces derramadas gota-a-gota dos meus lábios tivessem sido ouvidas, naquele momento um anjo negro de asas longas evaporaria da sua bebida, movendo o seu rosto para os meus olhos azuis de lua, mas não. 

Um gato roçou minhas pernas que me fez imaginar: como são sortudos os gatos de bares. Entrou um cara abraçou-a por trás e os dois subiram. O gato pulou no meu colo e eu quis mata-lo.

Irineu Magalhães 

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